E daí.
Resolvi virar uma pessoa organizada.
Postar no blog, cuidar da vida, cuidar de mim.
Tentando colocar em pé e fila indiana todas as prioridades da vida que estão jogadas na sala – que aliás, está com a lâmpada queimada.
Até quando o surto dura? Não sei. Espero que o suficiente.
Muitos, muitos dias depois.
Mais de um ano depois, torno à mansarda. E desde então, muita coisa mudou.
O vigésimo andar caiu para sétimo.
A chuvarada paulista – tão amada – deu lugar aos dias abafados do caos carioca de todo dia.
Família, amigos, parentes e potenciais amores ficaram na borda de lá do estado. E a saudade aqui dentro, como um soco no estômago, doí a maior parte do tempo.
Este é o recomeço. E é foda recomeçar.
Como é estranho sentir que em lugar algum andarei com a certeza de (re)conhecer cada rachadura e cada barulho. Ter dificuldade em travar um simples diálogo com toda e qualquer pessoa, pois deverei ser cheia de dedos, por não saber onde estou pisando. Achar graça sozinha de coisas que os demais simplesmente desconhecem, pois eles compartilharam uma realidade comum, que é alheia a sua.
A sensação constante de ser estrangeiro dentro do seu próprio país. A fragilidade causada pela total falta de familiaridade com coisa alguma é aterradora.
Mas essa sensação, como quase tudo na vida, passa.
Assim como nesse hiato passaram-se muitos meses, que foram anos; de diversas memórias e sentimentos e inconseqüências (porque não?), muitas passadas e outras ainda se ajustando.
E tudo, tudo será contado a seu tempo. A quem interessar possa.
Days like those – end.

E finalmente ela se cansou, e decidiu mudar.
Mas decidiu errado.
Na tentativa de se livrar do vidro, espatifou-o do alto do prédio
E junto com ele, as mariposas.
Sua vida tinha se tornado uma sucessão de erros que beirava o insuportável.
“Quando é que isso vai acabar? Quando é que vou me sentir viva, me reconhecer, encontrar o ponto de onde me perdi? Será que ainda é possível? Ou tudo aquilo que um dia eu julguei ser eu já está morto?
Está tudo tão seco – por dentro e por fora – que me perco nesta vastidão de nada”.
As mariposas agonizam numa poça de cacos de vidro e pedaços de asas.
Ela desce para acompanhar o espetáculo, e esmaga as que ainda batem as asas tontas.
Está feito.
Days like those

Ilhada num apartamento no centro da cidade provinciana, com a chuva a cântaros do lado de fora; sem promessas de passar tão cedo.
Anais Nin folheado no início, jogado no sofá. Um maço de mentolados no fim.
“Porra de chuva. Nem sair pra fumar posso. Se pudesse, dava uma viajada…ficava olhando o trânsito e os acidentes, e não pensava mais nisso.”
Vai até a janela da sacada. Mal se vê a estrada do vigésimo andar, tanta é a chuva.
“Merda. Daria meu reino por um beijo bem dado, um sexo bem feito. Se tivesse sido menos babaca com quem eu não quis antes, agora não ficava aqui, com medo do orgulho ferido dos outros. Se tivesse sido menos ética e mais, bem mais sacana, não estaria cheia de amigos, sem qualquer body friend à mão. Mas fazer o quê? Paspalha que sou, sempre me achei adulta.E agora ficamos aqui, eu e a vodca barata, fechados nesse apartamento abafado e minúsculo.”
Resolve ligar. Mas com aquela chuva, não há chamada que complete.
“É uma droga, mesmo. Essa minha mania de não procurar, de achar que me basto só me joga pra baixo, e eu não consigo sair disso. Se procurasse mais as pessoas, se visitasse, conversasse, escrevesse, abraçasse, amasse…talvez fosse diferente.
Talvez eu não estivesse aqui com essa quase auto-piedade de minha carência e solidão, desesperadas como mariposas dentro de um vidro…como eu dentro desse apartamento.
Mas o se não adianta. As coisas são o que são.”
Saiu na chuva mesmo, e acendeu o cigarro.
Hell-o
Este será um blog de porres homéricos e vexames.
De viagens e festas e amigos e amores.
De desafetos e desavenças.
De encontros ternos e despedidas amargas.
De sexo, suor e sangue.
Mas com a ressalva de quase tudo não ser verdadeiro.
De ser apenas a verdade que em mim habita: a concreta ficção de meu universo particular.
